
Bacurau (2019), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
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Uma obra maravilhosa repleta de poder e significado. Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é ao mesmo tempo um faroeste e um antifaroeste, porque conta sua história utilizando temáticas e conceitos clássicos do gênero, mas subverte tudo isso com a mistura de estilos que o Kleber Mendonça Filho gosta de fazer. O filme tem ficção científica, distopia, espírito de mundo pós-apocalíptico e, sobretudo, uma narrativa anticolonialista que cresce a partir de sua espetacular comunidade remota chamada Bacurau.
A comunidade fica a oeste de Pernambuco, no nordeste brasileiro, e é marcada pela união de seus moradores. Acompanhamos Teresa, de Bárbara Colen, que retorna ao vilarejo para o funeral de sua avó Carmelita, a grande matriarca do lugar. Teresa funciona como o olhar do espectador, nos aproximando da história e das nuances de Bacurau. Logo na estrada, ela se depara com um caminhão tombado cheio de caixões vazios, o que já parece um prenúncio de mau agouro. Ao chegar, descobre que a água foi cortada, o sinal de celular não funciona e, para piorar, Bacurau não aparece mais no mapa. O prefeito corrupto aparece oferecendo “presentinhos” e distribuindo remédios entorpecentes sem prescrição, enquanto algo muito maior e ameaçador se aproxima.
O grande lance do filme é a forma como o Kleber Mendonça Filho constrói uma narrativa lenta e cuidadosa, apresentando personagens e cenários com seus enquadramentos típicos e suas transições inspiradas em Akira Kurosawa. Essa homenagem dá ao filme uma vibe de Sete Samurais, especialmente no clímax. A fotografia e a direção de arte, junto com Juliano Dornelles, trazem algo do cinema dos anos 70, com transições que lembram Star Wars e a ficção científica clássica (que eram fortemente influenciadas pelo Kurosawa). Há até um drone em forma de OVNI, reforçando o aspecto futurista e distópico do cenário.
O contexto político também aparece através das mensagens de “procurado” sobre Lunga, interpretado maravilhosamente por Silvero Pereira, propagandas sobre execuções públicas e o aspecto autoritário do governo brasileiro daquele momento futurista da história do filme. Tudo isso vaza para dentro de Bacurau, que é tratada como descartável pelo mundo exterior. É nesse ponto que entra Udo Kier, em uma participação especial que traz uma crítica anticolonial sagaz e lúdica.
Uma coisa que eu posso dizer com gosto é que o filme, além de seus ares de Sete Samurais, ainda tem ares de O Alvo, que é um filme de 1993 do John Woo e do Jean-Claude Van Damme que eu adoro e que é inspirado num outro filme de 1932 chamado O Jogo Mais Perigoso, que eu recomendo fortemente também. Esses dois filmes são grandes clássicos do tipo de gênero que Bacurau aborda em seu segundo ato.
O filme se divide em duas partes. Primeiro, o estudo da comunidade e dos personagens, e depois, um banho de sangue espetacular, onde as nuances políticas ficam mais evidentes. É empolgante ver como Bacurau enfrenta a ameaça e inverte a narrativa colonialista típica dos faroestes norte-americanos. O roteiro ainda aborda como o sudeste muitas vezes enxerga o nordeste e a maneira como algumas pessoas são subservientes diante de países estrangeiros, o famoso “complexo de vira-lata”. Dois personagens vindos do sudeste se acham superiores, mas logo descobrem o preço de se voltarem contra seu próprio povo e sua própria cultura.
O elenco é excelente. Sonia Braga aparece como a Doutora Domingas, numa participação pontual e marcante, criando um ótimo contraponto com o personagem de Udo Kier, que também é fantástico no papel de uma maneira tragicômica pela forma infantil como ele evita reconhecer suas práticas brutais. A paisagem também é um personagem principal, com seu ar de deserto devastado equilibrado com a magia tropical e o misticismo da mata ao redor. A trilha sonora é sutil, mas poderosa, com músicas de Gal Costa, Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, além de momentos impactantes como a capoeira embalada pela tensa música “Night”, do diretor John Carpenter, que também é músico e amplamente conhecido por seus filmes de suspense e horror.
Bacurau é intenso, extravagante e surpreendente até o último minuto. Uma saga lúdica e sangrenta que mostra por que não se deve subestimar o nordeste brasileiro. O próprio nome vem do apelido do último ônibus da madrugada no Recife, que é inspirado em uma ave do sertão de hábitos noturnos e conhecida por ser braba. E esse filme é brabo. Se for, vá na paz.





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